sábado, 27 de maio de 2017

História trágico-marítima (CCXVIII)


O encalhe da barca "Flor de S. Simão"

Sinistro marítimo
Ontem, às 10 horas e quarenta e cinco minutos da manhã, quando entrava a barra do rio Douro, a barca “Flor de S. Simão”, procedente de Pernambuco por Lisboa, com 48 dias de viagem, uma volta de mar fê-la bater nas pedras da Meia-Laranja.
Em resultado deste acidente abriu água com tal violência, que não obstante os esforços empregados para a salvar, às 4 horas da tarde estava rasa de água e completamente perdida a esperança do bom resultado daquelas diligências.
Vinha consignada ao sr. José Baptista Vieira da Cruz.
O carregamento consistia em sal, dois mil e tantos sacos de açúcar e outros géneros, de que se perdeu quase tudo. Salvaram-se apenas algumas sacas de açúcar, mas poucas. Consta que o casco e a carga estavam seguros em duas companhias desta cidade (Porto).
O navio pertence à praça de Pernambuco (?).
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 29 de Agosto de 1871)

Desenho de uma barca, sem correspondência ao texto

Características disponíveis da barca “Flor de S. Simão”
Nº Oficial: N/a - Iic: H.C.G.P. - Porto de registo: Porto
Armador: Não identificado
Arqueação: 382,556 m3

Barca “Flor de S. Simão”
A barca “Flor de S. Simão” que ante-ontem naufragou próximo à barra, estava segura bem como o carregamento nas duas companhias Garantia e Segurança pela quantia de 32 contos, sendo metade do casco e metade do carregamento em cada uma delas.
A “Flor de S. Simão”, como foi dito, vinha de Pernambuco por Lisboa, de onde trazia 5 dias de viagem. O seu carregamento consistia em açúcar, algodão, couros e ourelo (ou ourela; fitas de pano grosso). O capitão é o sr. António de Salles e Silva.
Acerca das causas do naufrágio variam as opiniões. Segundo uns, o navio naufragou em consequência de lhe cair o vento sul pela proa, atirando-o sobre as pedras da Meia-Laranja. Segundo outros, o sinistro foi motivado pela corrente da maré, que enchia com muita força, levando o navio para junto daquele paredão, depois de o ter feito bater numa pedra desconhecida.
O que é certo, é que todos os esforços empregados pela tripulação para salvar o casco, de nada serviram. O rombo que o navio fez foi tão grande, que este encheu-se logo de água, não sendo possível estancá-la com as bombas.
Na noite de ante-ontem trabalharam muito, tendo sido conseguido tirarem para terra 150 sacos de açúcar e 15 de algodão, e alguns objectos do velame e massame, ainda que tudo alguma coisa avariado. Trabalham ainda para ver se salvam mais alguma carga.
O casco ainda se conserva inteiro sobre as pedras da Meia-Laranja, quase encostado ao paredão, que foi construído do lado da Cantareira.
Na ocasião do sinistro que sofreu a “Flor de S. Simão”, esteve também quase a virar-se uma lancha, que ia a entrar. Felizmente nada sofreu, por lhe acudirem as catraias que estavam próximas.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 30 de Agosto de 1871)

Barca “Flor de S. Simão”
Tem continuado as diligências para salvar a maior porção que seja possível do carregamento da barca “Flor de S. Simão”, ultimamente naufragada à entrada da barra.
Até ontem conseguiram salvar 362 sacos com açúcar, 39 fardos de algodão, 8 fardos de ourelos, 9 barris e 7 caixas com vários géneros e uma porção de massame, correntes e outros utensílios de bordo.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 31 de Agosto de 1871)

Barca “Flor de S. Simão”
Teve lugar ontem de manhã na Foz a arrematação do casco da barca “Flor de S. Simão”, ultimamente naufragada nas pedras da Meia-Laranja, bem como de todos os aprestos e o não visto da carga.
Foi tudo arrematado pelo sr. Júlio Schneider, de Cima do Muro, pela quantia de 4:205$000 réis. A arrematação foi feita por conta das duas companhias de seguros Garantia e Segurança. Parece que o sr. Schneider arrematou o casco para uma companhia de barqueiros, que projectam pô-lo a nado.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 1 de Setembro de 1871)

Barca “Flor de S. Simão”
Tem continuado as diligências para salvar o casco e ainda alguma carga da barca “Flor de S. Simão”. Ante-ontem de tarde e à noite, e ontem pela manhã, por ordem do arrematante, o sr. Schneider, foi empregue um mergulhador para entrar no porão do naufragado navio, a fim de extrair a carga que estava ainda debaixo de água.
Efectivamente algum resultado foi alcançado através destes esforços, pois foram tiradas por esta forma algumas sacas de algodão e bastantes sacas de açúcar, mas estas quase vazias, em consequência de se ter dissolvido o açúcar na água.
Ontem principiaram os trabalhos para levantar o casco. Para esse fim foram postas em volta do navio muitas pipas, para formar jangadas, com as quais se pretende suspendê-lo, fazendo ao mesmo tempo esgotar a água entrada no casco, por meio de bombas estanca rios.
Com estes trabalhos é esperado que a barca fique hoje a nado.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 2 de Setembro de 1871)

“Flor de S. Simão”
A barca com este nome, depois de preparada, com pipas vazias no porão, e algumas amarradas no costado, foi, no Domingo, posta a nado no sítio da Meia-Laranja, onde se encontrava naufragada desde o dia 28 de Agosto.
Às 6 e meia da tarde, depois de tirada para o largo pelo vapor “Mendes Leal”, foi por este vapor rebocada até S. Paio, em frente do Ouro, onde ficou para dali ser levada até ao estaleiro de Gaia. Efectivamente, ontem às 5 horas da tarde, foi conduzida para aquele estaleiro a reboque do mesmo vapor.
Por esta ocasião foram lançados ao ar grande número de foguetes, com que os interessados festejaram o bom êxito das operações para a pôr a nado e conduzir para ali. Por enquanto ficou surta junto do estaleiro, devendo mais tarde ser colocada nele, a fim de ser concertada.
Diz-se que o rombo que a fez naufragar fôra feito pela máquina ou parte do casco do vapor de ferro “General Lee”, que há dois ou três anos se perdeu no sítio onde a barca naufragara.
O açúcar que fôra salvo da barca antes da arrematação do casco, foi no sábado arrematado na alfândega de Miragaia. Eram umas 250 sacas de açúcar em bom estado, e 600 de açúcar molhado de água salgada.
O branco, sem avaria, foi arrematado na razão de 2$000 réis por cada 15 kilos, e o mascavo na razão de 1$695 réis. O molhado foi arrematado a 700 réis por cada 15 kilos; tudo cativo dos direitos. Foi arrematante o sr. Manuel José Monteiro Guimarães, Em segunda arrematação por conta deste foi tudo arrematado, em globo, por 701$500 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 5 de Setembro de 1871)

Anúncio da viagem que estava prevista, mas não concretizada

Barca “Flor de S. Simão”
Depois de arrematado o visto e o não visto da barca “Flor de S. Simão” o arrematante, sr. Schneider, ainda conseguiu tirar 1.189 sacas de açúcar avariado e um fardo de algodão. Tudo isto foi levado para a alfândega, por se achar cativo de direitos.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 6 de Setembro de 1871)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Divulgação


Conferência do Seminário do Mar


quarta-feira, 24 de maio de 2017

Leixões na rota do turismo! (5/2017)


Navios em porto nos últimos dez dias

A grande maioria dos navios de passageiros, que realizaram uma nova escala em porto, são já conhecidos de visitas em anos anteriores, mas vê-los de regresso foi e será sempre motivo de elevada satisfação, face ao reconhecimento das empresas armadoras, em função das excelentes condições que o porto oferece às suas unidades.
Há, porém, a considerar, a escala dos navios "Ocean Dream" e "Tui Discovery 2" a visitar o porto pela primeira vez, o que poderá insinuar sobre a importância de outras empresas, virem igualmente a optar pela escala dos navios em Leixões, realçando o porto e áreas limítrofes como referência no circuito europeu de cruzeiros.

No dia 15, o navio de passageiros "Silver Whisper"
Chegou procedente de Lisboa, tendo saído com destino à Corunha

No dia 16, o navio de passageiros "Queen Elizabeth"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Saint Peter Port

No dia 18, o navio de passageiros "Ocean Dream"
Chegou procedente de Valencia, saiu com destino ao Havre

Também no dia 18, o navio de passageiros "Artania"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Guernsey

No dia 21, o navio de passageiros "Mein Schiff 1"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino à Corunha

No dia 23, o navio de passageiros "Silver Explorer"
Chegou procedente de Lisboa, saiu com destino a Vigo

Ainda na noite de 23, o navio de passageiros "Tui Discovery 2"
Veio procedente de Vigo, saiu esta tarde com destino a Lisboa

terça-feira, 23 de maio de 2017

Dia da Marinha 2017


Os navios do desfile naval
21 de Maio de 2017, Caxinas, Vila do Conde

O navio de treino de mar NRP "Creoula"

O navio abastecedor A5210 NRP "Bérrio" e
a fragata F330 NRP "Vasco da Gama"

Os navios patrulhas P590 NRP "Tejo" e P1153 NRP "Cassiopeia"

A corveta F471 NRP "António Enes" e
o patrulha-oceânico P361 NRP "Figueira da Foz"

Vista geral dos navios em desfile
À direita a fragata F333 NRP "Bartolomeu Dias"

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Divulgação


Evocação do Dia Europeu do Mar 2017
Convite


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Divulgação


20 de Maio - Comemoração do Dia da Marinha
Póvoa de Varzim - Vila do Conde - Leixões


A comemoração do Dia da Marinha deste ano, que decorre em espaços públicos nas cidades da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, está a revelar-se um enorme sucesso, em função do interesse demonstrado pela população em geral, que tem acorrido massivamente aos locais onde estão instalados diversos meios utilizados pela força policial marítima, pelos fuzileiros especiais, nos colóquios, nas exposições e nas actividades desportivas em curso.
Está igualmente prevista grande afluência de público no próximo Domingo em Vila do Conde, durante o cortejo Naval e na visita aos diversos navios atracados na doca norte do porto de Leixões.
Durante o fim de semana, vai ser igualmente possível embarcar em lanchas disponibilizadas pela Capitania de Leixões, equipadas por equipas da Patronia, Polícia Marítima e Socorros a Náufragos.
Outras informações de interesse, podem ser consultadas no respectivo programa


terça-feira, 16 de maio de 2017

História trágico-marítima (CCXVII)


O encalhe e naufrágio do vapor “Gomes 7º”

A barra da foz do Douro, que no mês de Fevereiro findo, esteve interdita à navegação durante nove dias, sendo-o nos cinco últimos seguidos, por causa da agitação do mar e corrente de água no rio, foi ontem reaberta ao movimento de entrada e saída de embarcações, por terem melhorado um tanto as condições que determinaram o impedimento.
Houve, porém, a lamentar um sinistro, que pode indubitavelmente representar consideráveis prejuízos materiais, não tendo, por felicidade, havido perda de vidas.
A Corporação de Pilotos da barra, reunindo ontem de manhã, foi de parecer que poderiam entrar ou sair embarcações que demandassem até 14 pés de água. Cerca das 10 horas e meia entraram os vapores noruegueses “Tide” e “Muller”, em 12 pés de água, e que subiram o rio e buscaram ancoradouro, sem que lhes sucedesse incidente algum.
Pouco depois do meio-dia entrava também o vapor português “Gomes 7º”, avançando sem novidade até defronte do farolim de Felgueiras. De repente, desgovernou e, arrastado pela força da água, encostou para o sul, indo encalhar no cabeço da restinga do Cabedelo, a uns 200 metros de terra. A bordo foram içados sinais pedindo rebocador e avisando de que o maquinismo não funcionava bem; e imediatamente se apresentaram os rebocadores “Veloz” e “Hércules” para socorrer o “Gomes 7º”. Os esforços empregados para lhe lançar um cabo foram, porém, infrutíferos e, entretanto, o vapor encalhado batido pelas ondas, operava um movimento de rotação, ficando com a proa voltada a oeste; mas a popa, fortemente encravada na areia, não conseguiu levantar.
No Cabedelo apresentaram-se, logo que correu notícia do sinistro, o sr. Chefe do Departamento Marítimo do Norte, todos os pilotos disponíveis e grande número de pessoas daqueles sítios.
Por volta das 2 e meia da tarde foi lançado para o vapor, por meio de um foguetão, um cabo de vai-vem, que a bordo amarraram ao mastro grande, e às 4 horas deram começo ao salvamento dos tripulantes, que eram em número de 17, incluindo o capitão, e do piloto da barra, sr. Francisco Guerra, que vinha pilotando o vapor desde Leixões.
Dezoito vezes, pois, o saco de salvação fez o percurso, pelo cabo ligado entre o Cabedelo e o “Gomes 7º”, conduzindo outros tantos homens, que eram recolhidos a cerca de 110 metros de distância, pelo barco salva-vidas e por um saveiro da Afurada, tripulado por 10 valentes pescadores daquela localidade. Foi o saveiro que recolheu o primeiro náufrago, e notava-se que os remadores dos dois barcos porfiavam em apanhar o maior número possível dos indivíduos salvos por aquela forma, o que podia dar lugar a perder-se alguma daquelas vidas assim disputadas.
Houve um momento em que a ansiedade das pessoas que no Cabedelo e na Foz assistiam a este espectáculo foi angustiosa e se traduziu em gritos de aflição. Um dos tripulantes do vapor, Francisco Faísca, era puxado do areal pelo cabo de vai-vem; este tocou na água e o homem desapareceu, sem ter atingido nenhum dos dois barcos que o esperavam e por baixo dos quais passou avante. Felizmente, de terra fizeram com que o cabo corresse mais ligeiramente e em breve o náufrago tocava no areal, são e salvo, sendo abraçado e saudado com gritos jubilosos.
Eram 5 horas e 14 minutos quando o capitão do “Gomes 7º”, sr. Manoel da Costa, que foi o último a abandonar o vapor, caía no salva-vidas. No Cabedelo foram dispensados aos náufragos os socorros mais urgentes, sendo-lhes fornecida roupa para se enxugar por vários marítimos e outros indivíduos daquele extremo de Vila Nova de Gaia e da Foz,
A não ser o incidente que fica mencionado, e que aliás não teve consequências graves, todos os tripulantes fizeram bem a perigosa travessia, ficando ilesos. Eis os nomes deles:
Capitão, Manuel da Costa; imediato, Fernando Franco Serra, natural de Esposende. Marinheiros: Francisco António Faísca e António Castela, ambos de Portimão; Henrique Francisco, José Joaquim Rodrigues, António do Carmo e Francisco Marrusso, de Tavira. Fogueiros: Francisco Bernardo, de Portimão; Maurício Gordinho, de Mértola; Manoel Gomes Toledo, de V. R. Santo António; e António Manoel, da freguesia de S. Nicolau, no Porto. Despenseiro, José Mimoso. Criado, Carlos António Castela, de Portimão. Cozinheiro, Joaquim Vidal, de Alvor (Algarve). Engenheiros, James Smith e Franz Joseph Ender.
O sr. José de Souza Faria, solicito e activo agente na cidade da empresa a que pertence o “Gomes 7º”, apresentou-se sem demora nas imediações do lugar do sinistro, providenciando de modo que fossem prosseguidos os trabalhos para salvamento do vapor encalhado, ao mesmo tempo que lhe merecia especiais cuidados a tripulação, que em barcos fôra trazida para a Cantareira e dali viera em carro americano, ficando alojada no hotel do sr. Manoel Francisco Malhão, na rua do Comércio do Porto.
Os dez corajosos tripulantes do saveiro da Afurada, que tanto contribuíram para socorrer os náufragos, são o arrais António de Oliveira Dias Cangalhas, António Gomes Remelgado Júnior, Severino de Oliveira Dias Cangalhas, José Gomes Ferreirinha, António de Oliveira Meireles, João Nunes Arruela, Manuel Rodrigues Crista, José Vinagreiro, António Rodrigues Moleiro e José Rodrigues Crista.
O vapor “Gomes 7º”, um vapor solidamente construído de ferro, tem 456 toneladas e pertence ao sr. Alonso Gomes, fazendo, alternadamente com o “Gomes IVº”, do mesmo senhor, consecutivas viagens entre esta cidade, Lisboa, Algarve e portos da América, sempre com carregamentos completos e passageiros. Tinha entrado em Leixões no dia 25 do mês findo, e ali se conservara até ontem, aguardando que o mar abonançasse para entrara a barra.
O seu carregamento compõe-se de 800 sacas de cevada, consignadas aos srs. Martins & Silveira; 400 sacas de limpadura, 900 de purgueira, 50 de açúcar, 50 de café, 80 pipas de vinho e álcool, 70 fardos de tabaco em folha e porções de farinha e tremoços, com destino a diversos comerciantes.
O vapor encalhado, que está seguro em diversas Companhias estrangeiras, conservava-se, até ao anoitecer, direito e estanque, não tendo sofrido, pelo menos aparentemente, avaria alguma. Na vazante da noite, que devia dar-se por volta das 8 horas e meia, encetar-se-iam os trabalhos de descarga, se fosse possível, a fim de aliviar o casco. Para esse fim foram para a Foz o rebocador “Leão”, com seis grandes barcas. O capitão do “Gomes 7º” também para ali voltou, com a intenção de saltar para bordo logo que o mar desse lugar.
Cerca das 11 horas e meia da noite, porém, rebentaram as amarrações do “Gomes 7º”, e o navio, garrando, montou a restinga do Cabedelo para o sul, indo encalhar nas pedras denominadas «Folga Manada» ou na «Prolonga», o que de terra não se pode verificar bem por causa da neblina. O vapor ficou adernado para bombordo, supondo-se por isso que tenha sofrido algum rombo.
Como fica dito, o sinistro atraiu à Foz inúmeras pessoas, que na Meia-Laranja estiveram presenciando, durante a tarde, todas as peripécias que ocorreram. Ontem a velocidade da corrente no rio Douro era ainda de 4 milhas por hora.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 2 de Março de 1893)


Características do vapor "Gomes 7º"
Nº Oficial: N/a - Iic: N/a - Porto de registo: Lisboa
Armador: Alonso Gomes & Cª., Lisboa, 1892-1893
Construtor: Hall Russel & Co., Aberdeen, Março, 1877
ex "Banchory" - Grampian Steamship Co., Ltd., 1877-1892
Arqueação: Tab 576,00 tons - Tal 372,00 tons
Dimensões: Pp 54,36 mts - Boca 7,95 mts - Pontal 4,39 mts
Propulsão: 1 motor compósito do construtor - 2:Ci
Equipagem: 17 tripulantes

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Está completamente perdido o vapor “Gomes 7º”, que ante-ontem havia encalhado na restinga do Cabedelo. Por volta das 11 horas da noite, rebentaram as amarras do vapor, e este, impelido pelo mar, guinou para o sul, galgando a restinga e foi cair sobre a pedra «Folga Manada». Àquela hora a cerração era intensa, não se podendo do lado de terra, seguir os movimentos do navio naufragado.
As pessoas que estavam na Foz com o intuito de empregar esforços para a salvação do “Gomes 7º” seguiram pela Meia Laranja, procurando descobri-lo através da neblina. Efectivamente, numa ocasião em que a cerração se dissipou um pouco, puderam ver o navio flutuando à mercê das vagas. De súbito, porém, bateu duas vezes com grande fragor na penedia e baixou muito, não se mexendo mais.
Ao amanhecer, viu-se que o casco tinha sido despedaçado a meio; a parte da ré, até ao passadiço, estava perfeitamente imóvel, vendo-se fora da água o mastro e a chaminé; a parte da proa balouçava-se no dorso das ondas, até que o embate destas a foi destruindo a pouco e pouco.
Quase toda a carga acomodada no porão da proa começou a ser arremessada pelo mar ao areal do Cabedelo, onde era recolhida sob a vigilância de uns 20 soldados da Guarda-fiscal, às ordens do chefe da secção de Gaia, sr. Mendes, sob o comando superior da força, sr. capitão Cabreira. Os salvados são: grande número de fardos de tabaco, pipas e cascos de vinho e álcool, sacas de cevada e purgueira, algumas de farinha e vários cascos vazios. Há pipas que têm vindo arrombadas, depois de verterem até à última gota o líquido que continha.
O porão da ré já foi também aberto pelo mar, pois que alguma carga miúda ali acondicionada tem vindo igualmente dar à praia. Ainda lá estão dentro bastantes cascos de álcool e alguma purgueira. Como fica dito, os arrojos do mar vão todos ao Cabedelo, e para evitar que haja qualquer cena de pilhagem, uma patrulha de cavalaria da Guarda-fiscal percorre a beira-mar até alturas do Senhor da Pedra.
Fora do Cabedelo apenas um rapazinho achou uma garrafa de cerveja e a bandeira que o vapor tinha arvorado para pedir rebocador, quando ante-ontem se deu o sinistro. Esses objectos foram apreendidos pela delegação da alfândega na Cantareira.
Às 8 horas e meia da manhã de ontem em que ainda se conservavam direitas as duas metades do vapor, saltaram para bordo os tripulantes do mesmo, em procura dos haveres que lá deixaram quando na véspera tiveram que o abandonar. Alguns dos náufragos puderam então retirar a maior parte das roupas e outros objectos que lhes pertenciam, salvando também o capitão e o 1º engenheiro alguma roupa e vários instrumentos náuticos. O imediato e o 2º engenheiro não salvaram coisa alguma, bem como o marinheiro António do Carmo, o criado Carlos Castela, e os fogueiros Maurício Gordinho, António Manoel e Manoel Gomes Toledo.
O prático da barra que pilotava o vapor “Gomes 7º” foi suspenso do exercício das suas funções.
Como o dia de ontem esteve de sol e de uma amenidade primaveril, foi considerável o número de pessoas que acorreram à Foz para ver o vapor naufragado. Os carros da Companhia Carris de Ferro, tanto da linha marginal como os da Boavista, fizeram corridas extraordinárias durante o dia, indo e vindo sempre cheios de passageiros.
(In jornal “Comércio do Porto”, sexta-feira, 3 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Conservava-se ontem no mesmo estado em que ficou no dia anterior o casco despedaçado do vapor “Gomes 7º”. Apenas a parte da proa se fragmentou um tanto mais, por efeito dos embates do mar.
Na maré das 8 horas e meia da manhã, em dois caíques que atracaram à popa do vapor foram retirados da respectiva câmara vários objectos de mobília e de trem de cozinha, tais como espelhos, sofás, louças finas e de ferro, e bem assim roupas de cama, almofadas, bandeiras, farolins, latas de conserva, garrafas de diversas bebidas, etc.
Segundo informou o capitão do “Gomes 7º”, na parte do navio que permanece direita apenas existirão, no porão, uns oito ou dez cascos de álcool e algumas sacas de purgueira.
Ao Cabedelo continuaram ontem sendo arrojados pelo mar vários destroços do navio – pedaços de madeira e metade do mastro da proa. Também foram dar ao areal uns cinco cascos de álcool e diversas sacas de cereais. No serviço de arrecadação dos salvados emprega-se uma turma de 16 trabalhadores, que por vezes são auxiliados pelos soldados da Guarda-fiscal incumbidos da vigilância.
A patrulha a cavalo, da mesma guarda, que percorre a linha de costa até Gulpilhares, tem perseguido diferentes indivíduos que tentam apanhar despojos do naufrágio arremessados às praias. Que conste, porém, apenas dois homens foram encontrados com um pedaço de encerado e uma pequena mala, que não conseguiram subtrair.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 4 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
O mar não destruiu ainda o que resta do vapor “Gomes 7º” desde que foi quebrado o casco em dois pedaços. Ontem só se notava que o mastro da ré está partido, não se sabendo explicar o que o sustentava erguido.
Com respeito a despojos do naufrágio, somente foram arremessados ao Cabedelo durante a noite de ante-ontem para ontem dois cascos com álcool e 16 sacas de purgueira, e ontem de manhã 1 casco com álcool.
Quase todos os salvados deram já entrada na alfândega. Para esse fim foi contratada com o estivador sr. Florindo Bandeira a remoção dos mesmos salvados do lugar onde se encontravam para as barcas que os conduziram àquela casa fiscal.
Ontem foi conduzida para ali a seguinte carga: 28 pipas de álcool, 52 pipas de vinho, 245 sacas de purgueira, 96 fardos e 4 caixas de tabaco, 2 fardos de papel para tabaco, 32 cascos vazios e 1 grade de feltro. No areal pouco resta: alguma lenha, várias pipas de vinho e álcool e um montículo de tabaco em folha.
O serviço de fiscalização tem sido feito com a máxima vigilância, na costa pela força da Guarda-fiscal, sob o comando do chefe de secção de Gaia, sr. alferes Mendes, e na via marítima por um barco da alfândega dirigido pelo patrão de remadores sr. Vital Gonçalves Lima.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 5 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
O casco despedaçado do vapor “Gomes 7º” ainda se conserva no mesmo estado tal como ante-ontem foi descrito, e continuou sendo alvo de curiosidade, pois que foi muita gente à Foz, no Domingo, para ver os destroços do sinistro.
Já foram remetidos para a alfândega os restantes salvados, que se achavam no Cabedelo.
Junto da praia de Lavadores foi ontem arremessada uma pipa de álcool, que alguns soldados da Guarda-fiscal trataram de arrastar para o areal, tendo para isso de empregar grandes esforços e até com certo risco. Os soldados ficaram completamente alagados pela água do mar e um deles feriu-se bastante numa perna.
Desde que ocorreu o naufrágio, as forças de cavalaria e infantaria da Guarda-fiscal têm estado alojadas numa casa que o comerciante sr. Charles Coverley possui no Cabedelo e que pelo mesmo cavalheiro fôra generosamente oferecida para esse fim, procurando, além disso, que aos militares que ali vão pernoitar se depare o possível conforto.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 7 de Março de 1893)

O naufrágio do vapor “Gomes 7º”
Da popa do vapor “Gomes 7º”, que não foi por enquanto destruída pelo mar, foram ontem retirados um casco de álcool, vários utensílios da cozinha de bordo e uma porção de cobre.
(In jornal “Comércio do Porto”, quarta-feira, 8 de Março de 1893)

O vapor “Gomes 7º”
Continuou ontem a faina de retirar alguns salvados de bordo do naufragado vapor “Gomes 7º”, da parte da ré que o mar não destruiu por enquanto. Foram conduzidos para terra a roda do leme, vários cabos e correntes de ferro, moitões de ferro e de madeira, e ainda diversas peças do trem de cozinha, etc.
(In jornal “Comércio do Porto”, quinta-feira, 9 de Março de 1893)


Novo vapor
O naufragado vapor “Gomes 7º” vai ser substituído por um novo navio, que se denominará “Gomes VIII”, e que terá uma lotação superior a 1.000 toneladas. Com a aquisição do novo vapor fica a casa Alonso Gomes & Cª com a sua frota novamente completa, satisfazendo assim os desejos dos carregadores que necessitam dos serviços dos vapores da mesma empreza, de que é agente nesta cidade o sr. José de Souza Faria.
(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 11 de Março de 1893)

O vapor “Gomes 7º”
Realizou-se ante-ontem no Cabedelo a arrematação dos salvados vistos e não vistos do vapor “Gomes 7º”, ultimamente naufragado. O casco do vapor foi arrematado por 331$000 réis, e os salvados não vistos por 31$000 réis.
(In jornal “Comércio do Porto”, terça-feira, 14 de Março de 1893)